• Henrique Reichert

Evolução da música brasileira em números

De modo geral, o contexto econômico e político impacta diretamente na nossa forma de viver, na cultura e até nos produtos consumidos. Durante a ditadura, a música foi uma das formas de verbalizar contra o cenário político, enquanto o retorno da democracia popularizou novos estilos musicais.


Todas estas mudanças de estilos e das letras das músicas brasileiras ficam eternizadas na história, mas não é tão trivial avaliar quais de fato foram as diferenças entre um período e outro. Além disso, há vários contextos internacionais, da própria tecnologia e forma de reprodução musical que também afetam na definição da música nacional.


Para avaliar a evolução da música brasileira e comparar as últimas oito décadas, buscamos as playlists de músicas que marcaram a época e utilizamos variáveis do próprio Spotify para comparar as diferenças entre as décadas.


Para os mais interessados em checar a forma com que captamos e tratamos estes dados, disponibilizamos todo o projeto de forma pública no GitHub. O importante aqui é saber que usamos como referência as 50 músicas que marcaram cada uma das décadas da história brasileira. E, claro, para não perder a oportunidade de fazer um comparativo com as músicas atuais, também pegamos a playlist 'Top Brasil', que traz as músicas mais populares deste momento.


O que mudou na música brasileira entre as décadas?


Bem, vamos por partes. Algumas das variáveis que utilizamos para avaliar as músicas apresentam uma transição gradual, em sequência, e não está muito ligada a contextos sociais, mas sim à própria evolução de instrumentos musicais e formas de edição da música.


Dançabilidade, Energia, Volume e Batidas por Minuto


Estas variáveis são dançabilidade, energia, volume e batidas por minuto. As batidas por minuto são o que definem o ritmo e a pulsação musical, já o volume é a média de decibéis que a música alcança. A energia é o resultado destas duas variáveis e de alguns outros fatores, um rock pesado e acelerado terá uma alta energia, enquanto que uma sinfonia de Vivaldi terá uma energia menor. Por fim, a dançabilidade é quão dançável é a música, simples assim.


Estes componentes têm apresentado uma evolução década após década, principalmente no quesito volume. As batidas por minuto e energia, por sua vez, também apresentam evolução subsequente, mas já apontam uma ruptura mais drástica nas décadas de 1980 e de 2010.


Essa mudança abrupta nas batidas por minuto fica mais nítida quando pensamos que as músicas mais populares de 1970 são Flor de Lis (Djavan) e Maluco Beleza (Raul Seixas), enquanto que a década de 1980 trouxe ritmos mais frenéticos tais como Será (Legião Urbana), Bete Balanço (Barão Vermelho) e Olhar 43 (RPM). Já em 2010, o algoritmo do Spotify posicionou as músicas da década como ainda mais rápidas, entre elas, estão Logo Eu (Jorge e Mateus), Maus Bocados (Cristiano Araújo) e Quero Toda Noite (Fiuk).


No quesito volume, além das músicas mais atuais serem, em média, bem mais altas que as antigas, há uma nítida redução da variância entre elas. Ou seja, parece que as músicas de sucesso mais atuais repetem um padrão de sonoridade mais elevada, apenas Doutora 3 (Mc Kevin) e Louis V (Sidoka) ficam em um volume menor que a média da sua década, mas que seria considerado um volume alto para os padrões da década de 1950.


Se você quiser dançar, as músicas das décadas de 50 a 70 não serão boas escolhas. Houve uma mudança brusca também para a década de 80 neste quesito. As músicas mais atuais também apresentam ritmos mais favoráveis para a dança.


Valência e Acusticidade


Além destes fatores, duas outras variáveis chamam bastante a atenção na análise da evolução da música, que não apresentaram apenas mudanças graduais. A primeira delas é a valência, um indicador que mensura o quão positiva é a música.


E nessa competição por positividade, a vencedora é a década de 1980, puxado por Vento Ventania (Biquini Cavadão) e Andar Com Fé (Gilberto Gil). Por outro lado, os anos 2010 e 2000 foram os mais melancólicos, o que se explica pelos ritmos lentos de Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim (Ivete Sangalo) e Olhos Certos (Detonautas).


Um outro fator que mudou drasticamente entre as décadas é o indicador de música acústica (que são aquelas músicas que não usam equipamentos eletrônicos). Enquanto a década de 1950 foi muito puxada para o lado acústico, as duas décadas subsequentes já indicaram um aumento do uso de ferramentas eletrônicas. Nas décadas de 1980 a 2000, com a inserção do rock brasileiro, o nível de acusticidade ficou muito mais reduzido (para delírio da MTV).


E como tudo que vai volta, os anos 2010 voltaram a usar instrumentos acústicos, a um nível parecido com as décadas de 60 e 70.



Palavras mais comuns


As coisas mudaram no ritmo, mas queríamos confirmar se elas também mudaram nas letras das músicas. Abaixo, uma sequência apresenta as nuvens de palavras das músicas em cada década.


Além do sentimento de saudade das músicas antigas, avaliamos qual o sentimento das letras adotadas nas músicas. Isso funciona da seguinte forma, cada palavra se encaixa em positiva ou negativa, sendo que miserável, sozinho e matar são altamente negativas, já as palavras amor, vida, feliz são bem positivas. Com isso, podemos verificar se são usadas, em média, mais palavras positivas ou negativas, qual o grau desta positividade.


Novamente, a década de 1980 foi a vencedora, o que mostra que o indicador de valência também estava correto neste caso. As músicas da década de 80 foram, portanto, mais positivas tanto na letra como no ritmo.


Mas nem sempre estas variáveis estão ligadas e o melhor exemplo possível são as músicas mais tocadas do momento. Apesar de elas apresentarem a segunda maior média de valência (mais positivas sonoramente), são as letras mais negativas entre todas as décadas, e com certa distância das demais.


Nas músicas atuais, há muito uso das palavras terrível, matar, louca, comedor, entre outras. Todas com duplo sentido, é verdade, mas ainda assim são palavras negativas. Além disso, parece haver uma falta de palavras positivas para compensar este peso ruim.


O amor, a palavra mais comuns entre todas as décadas, teve uma das menor aparições entre as músicas atuais. Enquanto que cerca de 60% das músicas das décadas de 1990 e a1960 continham a palavra amor, só 40% delas citava o amor entre as músicas atuais. Além da menor ocorrência, a frequência de uso da palavra em relação ao total de todas as palavras citadas é a menor entre todas as décadas.

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