• Carolina Custódio

Hábitos da Geração Z e a preocupação com o futuro

A guerra das gerações do twitter parece já ter passado, mas a diferença de comportamento da nova geração é de fato um assunto extremamente relevante para avaliar tendências de consumo e de posicionamento das marcas.


Quem forma a nova geração?


Segundo a McKinsey, a geração nascida entre 1995 a 2010 já representam 26% da população mundial, e são 30 milhões aqui no Brasil e exercem influência considerável sobre o consumo. Estas pessoas formam a primeira geração nascida dentro de um mundo online e móvel,


Em uma pesquisa realizada pela consultoria, as entrevistas realizadas com a nova geração indicam que estes são mais pragmáticos, realistas e tolerantes ao diálogo. De modo mais prático, a pesquisa da Barkley afirma que os jovens preferem campanhas publicitárias com pessoas comum a atores famosos, o que direciona mudanças no posicionamento de empresas.


Mas voltando a nossa matéria, pensamos em deixar de lado estas afirmações generalistas para trazer alguns dados de pesquisas com embasamento estatístico para representar as diferenças de comportamento entre as gerações. Afinal, é normal a gente supor que a Geração Z é bem diferente das gerações mais antigas.


Comparativo do comportamento dos alunos


Pra responder isso, vamos avaliar a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, que começou em 2009, apresentou resultados em 2012, 2015 e agora teve recente divulgação dos dados de 2019.


A pesquisa aborda uma gama de assuntos, incluindo informações demográficas, hábitos alimentares, autoavaliação de imagem corporal, exercícios físicos, consumo de cigarros, álcool e outras drogas, comportamento sexual, saúde dental, entre outras práticas. São consultados alunos do nono ano do ensino fundamental de todo Brasil.


Apesar deste recorte de nível escolar, é importante destacar que a PeNSE é estatisticamente representativa por estudantes do nono ano, mas é razoável inferir que os fenômenos apresentados na pesquisa ocorram também em séries anteriores e posteriores ao recorte.


Como os dados de 2009 contemplavam apenas as capitais, os demais anos estão com este mesmo recorte, para que a comparação seja mais correta. Em todos os gráficos é possível filtrar os dados para a capital de interesse.



Menos televisão


Podemos começar a comparação de leve e pelo óbvio; o número de horas assistindo a televisão é bem menor na geração atual do que na década passada. Em 2009, quase 8 de cada 10 alunos assistiam televisão por mais de duas horas por dia, quantidade que caiu para metade disso, o que é claramente um efeito da falta de TV Globinho.


Não há outras formas de entretenimento nesta pesquisa, mas era de se imaginar que a televisão não se encontra mais entre os favoritos desta geração. Provavelmente, celulares e videogames devem ter ganhado esta disputa pela atenção dos jovens (fica a dica para o @IBGE).



Menos exercícios e interesse por frutas


Apesar daquela retórica que escutamos de interesse da nova geração por negócios sustentáveis, que se preocupem com o ambiente e com as gerações futuras, a pegada ecológica para no momento em que a nova geração vai escolher o que comer.


O consumo de frutas também se reduziu praticamente pela metade, enquanto o consumo de doces aumentou quando comparado a 2009.



Ao lado de uma alimentação mais enfraquecida, o nível de atividade física também caiu, sendo que a média de mulheres que fazem mais de 300 minutos de exercícios por semana é de menor de 20%.


Hábitos de higiene bucal


No quesito higiene bucal a geração TikTok também sai perdendo, com piora considerável na frequência de alunos que escovam os dentes três vezes ou mais ao dia. Chama a atenção que na rede privada o número é pior que no ensino público.



Eu sei o que você fez no verão passado


Entrando agora em assuntos mais relacionados ao acesso ao celular e a internet. Em 2009, a pesquisa apontava que pouco mais da metade dos pais sabiam o que os filhos faziam durante o seu tempo livre. Dez anos depois, este número saltou pra 82%.



Outro fator positivo associado aos pais é a queda do número de fumantes entre os responsáveis, que caiu de 31% para 24%.



Cigarros e Drogas


Com a diminuição no número de pais fumantes e a maior atenção às atividades dos filhos, poderíamos esperar que a nova geração fosse mais controlada em termos de uso de cigarros e drogas ilícitas, mas esse não parece ser o caminho.


Após uma queda notória nas duas pesquisas entre as décadas, caindo para menos de 20% o número de escolares que já haviam experimentado cigarro, o percentual voltou a subir e está praticamente no mesmo nível do final da década de 2000, inclusive superando a condição anterior entre as alunas e os escolares da rede pública.


No caso das drogas ilícitas, a experiência vem se tornando cada vez mais comum, chegando a mais de 15% dos alunos. Na rede pública, o valor é ainda maior.


Percepção corporal afetada


Por fim, um outro ponto que chama muito a atenção é a autopercepção da imagem corporal dos alunos. Quando questionados em relação ao seu peso, aumentou drasticamente o número de escolares que se achavam magros ou gordos.


Essa aparente contradição na verdade traz uma tendência mais evidente de que menos pessoas se consideram "normais", o que pode ser reflexo do enorme apelo à imagem vinculado ao uso das redes sociais.


E agora, José?


A questão é que depois do ocorrido, é mais fácil pontuar que a Geração X (nascidos entre 1960 e o início da década de 1980) teve identificação com grandes marcas, uma vez que, na verdade, a economia foi dominada por crescimentos em escala e início de globalização, onde as multinacionais ganhavam vez.


Já no caso dos Millenials - marcado pelo consumo de experiências - a geração lidou exatamente com a ascensão de startups e busca por novas soluções, deixando de lado a questão de marcas e do consumo de bens materiais, pois o nosso cotidiano não necessitava mais disso e abriu outras possibilidades.


Para os nascidos em meados dos anos 2000 (segunda metade da Gen Z) que são mais jovens e muitos ainda não ingressaram no mercado de trabalho e nem possuem estabilidade financeira para decidir sozinhos o que consumir, ainda é cedo para afirmar o que definirá esta geração.


Além disso, o retrato das últimas décadas e do comportamento das gerações mostra que o contexto da economia e da produção das marcas define muito do comportamento das pessoas, ou seja, mesmo que a Geração X nascesse com uma busca frenética por experiências e por formas de compartilhamento, isto não lhes era cabível na época.


Portanto, talvez o mais relevante desta pesquisa seja rever alguns hábitos não saudáveis que a nova geração está reproduzindo. Em termos de saúde pública, é preciso avaliar a alimentação e a promoção de exercícios para os mais novos. Ao mesmo tempo, talvez pela não convivência com problemas mais críticos de doenças e vícios do passado, o retorno do consumo de drogas ilícitas e cigarros também preocupam.

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