• Carolina Custódio

Ambiente de negócios ou concorrência, o que mais influencia na sobrevivência de empresas?

Existem 19 milhões de empresas no Brasil e 99% delas são micro e pequenas empresas. Apesar da relevância em PIB e geração de empregos, a produtividade das MPEs é consideravelmente inferior às de médio e grande porte, inclusive com um gap superior ao encontrado em outros países. Além da baixa produtividade, a taxa de sobrevivência das empresas dos últimos 5 anos foi de 38%, sendo menor nas atividades de comércio.


Avaliamos os impactos da concorrência e do ambiente de negócios na sobrevivência das empresas e os resultados indicam que o nível de concorrência é um fator mais impactante para os negócios. Empresas que se situam em ambientes de baixa concorrência têm uma taxa de mortalidade até 40% inferior às empresas que atuam em alto grau de concorrência. Outros fatores, como a qualidade do ambiente de negócios, não possuem um impacto tão claro na sobrevivência das empresas.



Análises de sobrevivência


Dado o contexto e a relevância da manutenção das empresas, avaliamos as bases de dados da Receita Federal, para cálculo das taxas de concorrência das atividades econômicas entre os municípios, e do Índice FIRJAN de Desenvolvimento Econômico (IFDM), como proxy da qualidade institucional do ambiente de negócios das empresas.


A partir dos métodos de Análise de Sobrevivência de Kaplan Meier e Cox Proportional-Hazard, foram avaliadas cerca de 556 mil empresas catarinenses abertas entre 2005 a 2016.


As análises de sobrevivência são definidas como um conjunto de técnicas estatísticas para descrever e quantificar o tempo para determinado evento, o que é utilizado para avaliar situações como a sobrevivência de um paciente após uma cirurgia, o tempo necessário até uma fazenda vivenciar um caso de doença exótica ou para medir o tempo que as pessoas permanecem desempregadas após uma perda de emprego, por exemplo.


Impactos da concorrência na sobrevivência


Como nem todas as atividades econômicas possuem objetivos ou formas de atuação semelhantes, foram selecionadas as segmentações mais representativas. De modo geral, os resultados indicam que são relevantes: o papel do empreendedor, em avaliar o mercado em que irá atuar; e o papel do poder público, em promover um ambiente de negócios mais favorável aos negócios.


Contudo, os efeitos da concorrência e do ambiente de negócios sobre as diferentes atividades econômicas não são uníssonas. Os modelos estatísticos apresentados e aplicados a seis tipos de negócios, os quais permeiam o comércio, serviços e indústria apresentam resultados diferentes entre si, tanto na relevância dos fatores avaliados quanto na estrutura da sobrevivência em si.


Os salões de beleza e comércio de vestuário apresentam taxas de sobrevivência mais curtas. Em ambas as atividades, após pouco mais de 4 anos de operação, apenas cerca de 50% continuam ativas. Já os mercados e Restaurantes possuem níveis de sobrevivência mais elevados, com cerca de 60% das empresas ativas após 100 meses de operação.



Outro fato notável pelos gráficos de sobrevivência é a capacidade do nível de concorrência em diferir dos níveis de mortalidade das empresas. Os setores da construção, de lanches e bares são os que possuem maior grau de distância entre as curvas de baixa e alta concorrência.


Por outro lado, o comércio de vestuário não apenas apresentou curvas muito próximas, como também apresentou uma inversão das concorrências. Neste caso, quanto maior a concorrência, maior a chance de a empresa se manter ativa, contrariando os demais comportamentos observados. Este resultado pode se apresentar pela ampla variedade de estilos de vestimentas disponíveis, definindo um nicho para cada comércio.


Estas diferenças são confirmadas nos modelos de Cox Proportional-Hazards. Neste formato, os Restaurantes e Mercados confirmam diferença notória entre as curvas de sobrevivência apenas para negócios em que a concorrência é baixa. Em ambos os casos, a taxa de mortalidade é cerca de 10% inferior ao de alta concorrência.


Para o caso da Construção, a taxa de mortalidade para negócios em baixa concorrência é cerca de 40% menor que as atividades de alta concorrência.


Em relação ao ambiente de negócios, as diferenças entre as curvas não foram tão notáveis. Além disso, novamente o setor de vendas do vestuário apresentou comportamento contrário ao previsto. Este segmento soma-se aos mercados e revelam uma melhora na sobrevivência das empresas em cidades com ambientes de negócios menos favoráveis.




Nos casos dos restaurantes, lanches e bares, a curva do alto desenvolvimento se cruza com as demais. A interpretação recai de uma influência positiva do ambiente de negócios apenas no início dos negócios, mas piorando este favorecimento ao longo do tempo.


Comparada a concorrência, o fator de ambiente de negócios mostra menor capacidade de influenciar a sobrevivência das empresas. Apenas o comércio de vestuário e construção mostraram níveis de significância relevantes em todos os graus de desenvolvimento.


No caso da construção, os níveis de baixo desenvolvimento municipal mostraram uma capacidade de aumentar a taxa de mortalidade em cerca de 10%. Para o comércio de vestuário, um menor nível de desenvolvimento municipal tende a diminuir a taxa de mortalidade das empresas em cerca de 25%.


Ao utilizar os valores de concorrência e do desenvolvimento econômico em formato contínuo e quantitativo, as regressões revelam que ambos fatores são relevantes para todos os segmentos, em menor ou maior grau. Neste formato, os índices de concorrência estão todos com os sinais esperados, representado o fato de que quanto maior maior a concorrência, maior a taxa de risco (ou mortalidade) das empresas.


Por outro lado, os fatores de desenvolvimento municipal seguem mostrando certa desorientação em relação a sobrevivência das empresas. Apesar de serem significativos, o aumento do desenvolvimento municipal apenas se mostrou um fator de diminuição da taxa de risco para os salões de beleza, tendo sinal contrário nos demais casos.


Qual o aprendizado que fica?


A partir do modelos de sobrevivência foi possível observar que a concorrência exerce uma influência mais significativa e condizente com as expectativas. Quanto maior a concorrência, maior a taxa de risco de fechamento precoce das empresas. Este resultado foi praticamente uníssono entre os segmentos avaliados, à exceção da atividade de comércio do vestuário, que teve comportamento inverso.


Por outro lado, os fatores do ambiente de negócios não foram tão relevantes e nem conseguiram mostrar sensíveis diferenças entre as curvas de sobrevivência. Apesar de que, em alguns segmentos, a melhora dos serviços públicos ter se apresentado como favorável aos negócios, isto não ocorreu em quatro dos seis segmentos avaliados. O sentido de melhor oferta dos serviços públicos se traduzir em menor risco de sobrevivência também não se comprovou nas regressões de variável contínua.


Destaca-se que a análise dos fatores relacionados à sobrevivência das empresas tem se apresentado como fundamental para a orientação das políticas públicas e para a evolução da literatura relacionada ao empreendedorismo. Em função da matriz produtiva do Brasil ser pautada em pequenas empresas e a taxa de sobrevivência ser consideravelmente baixa, principalmente em setores de baixa intensidade de capital, como o de salão de beleza, é primordial direcionar esforços para a promoção da competitividade e da sustentabilidade das empresas.


Entre tais esforços, é preciso refletir para o papel do empreendedor nesse processo. Os resultados do impacto da concorrência mostram que pesquisas de mercado previamente conduzidas podem ser determinantes para a sustentabilidade das empresas e da economia local.


Autora: Carolina Custodio é analista de dados e mestranda em Economia pelo IDP-DF.

Fontes dos dados: Todos os dados são oriundos de fontes públicas, da Receita Federal e da Firjan. As análises e gráficos foram construídos pela Caravela.

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